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  • Stenio Moura

Dados são importantes. As pessoas são mais.


Você acredita que dados são tudo? Então esse artigo não é para você.

Por que?

Porque depois de 40 dias preso em casa, deveríamos todos ter percebido que as pessoas sim que são tudo.. Ou melhor, as vidas das pessoas.

Não estou dizendo isso porque não acredito nos dados e no uso deles. Ao contrário. Trabalho com dados, tomo decisões através de dados, mas minha última experiência de vida mostrou que dados não são nada perto de vidas humanas e cada coisa precisa ser colocada em seu lugar.

Sábado, 25 de abril de 2020. Em meio à quarentena, eu e minha esposa tivemos que sair de casa às 5h30 da manhã para ir a um inesperado velório de um amigo - uma pessoa que nos fará muita falta. Ou seja, inevitavelmente tivemos que sair de casa. Fomos cedo para chegar ao velório antes de todos, nos despedir desse amigo e evitar ficar em aglomerações, uma vez que ainda estamos todos lutando contra essa pandemia.

Faltando 10 minutos para o nosso destino, o GPS pediu para eu virar a direita e, quando fiz isso, cai no meio de uma favela (não citarei nenhum nome de local ou marca de gps porque essa não é a ideia aqui).

Ao entrar nessa favela (por algum motivo não dei ré) andamos 50 metros e fomos abordados por três jovens, armados, que entraram na frente do carro como se fossem atirar e mandaram descermos no carro.

Nesse momento não pensei na minha to do list da semana, nos planos de carreira, nos projetos que ainda quero executar, em nada. Só tive muito medo de morrer. Muito medo de não ver mais meu filho. Muito medo de não poder viver a vida que Deus preparou para nossa família. Medo de não poder desfrutar da vida que Deus me deu de presente para eu cuidar.

Nos tomaram tudo. Carro, alianças, celulares, documentos, cartões. Mas não nos tomaram nossa vida, Graças a Deus. E isso basta.

Entendi que nenhum bem é mais valioso que a própria vida. Você só entende essa frase clichê, efetivamente, quando tem uma arma apontada para o seu rosto, acredite. Antes disso é crença e discurso. Mais do que isso. Vi o quanto Deus estava conosco ali naquele exato momento. Eu senti isso vividamente.

Estou contando isso por dois motivos.

Primeiro. Essa favela que entrei é super mapeada no sistema de segurança da cidade de São Paulo e reconhecidamente uma das mais perigosas, mas mesmo assim não havia nenhum aviso no app quando montou meu caminho, que meu caminho seria mais rápido mas que passaria por um lugar altamente perigoso e correria riscos. Não fui o primeiro que passou por isso e nem serei o último. São incontáveis as vezes que já ouvi alguém dizer que colocou o caminho no GPS e caiu dentro de uma favela para desviar do trânsito. Mas porque será que não podemos utilizar os DADOS para ajudar a salvar vidas? O que falta para inserirmos dados tão relevantes dentro da experiência de uso do app? A minha e a da minha esposa poderia ter ido embora em um instante por conta de mal aproveitamento de dados disponíveis. Entendo que há uma política de não discriminação de locais ou comunidades, e que também deveria (e a partir de agora farei isso) olhar o trajeto do GPS antes de seguir caminho. Não conhecia o meu destino e simplesmente digitei o endereço e apertei INICIAR. Confiei cegamente na tecnologia.

Como disse, esse assunto não é novo e, por isso, algumas iniciativas com GoogleMaps e Waze já foram realizadas. Por exemplo, no RJ que virou lei os apps informarem sobre áreas de risco (Leia aqui). Claro, tem toda uma questão sobre a responsabilidade de segurança do estado ou das empresas de tecnologia. Mas aqui não estou falando de responsabilidade, mas sim de vidas humanas. Também há melhoras nesses apps para indicar ruas iluminadas e diminuir o risco nos trajetos indicados (Leia aqui). O que falta para colocarmos esse assunto em discussão já que muitas pessoas passaram e passarão pelo que passamos? De quem é a responsabilidade enquanto as pessoas continuam sendo as vítimas?

Em segundo lugar, nessa fração de segundo que os bandidos entraram na frente do carro pensei em absolutamente tudo. Um filme passou na minha frente. fique absolutamente calmo e refletindo em menos de um minuto (que foi o tempo que durou a ação do assalto) toda a minha vida, prioridades, planos, o que realmente importa. E, confidenciando aqui, um dos meus maiores sabotadores é ser hiper-vigilante, ou seja, ver risco em tudo e, por isso, não tomar uma série de decisões. Porém, vi que não há risco em nada e que o que é urgente é a vida. O resto são só dados e informação.

Concluo reforçando que os robôs vieram para nos ajudar, para facilitar nossas vidas. Não tenho dúvidas. Além disso, os dados são fundamentais para tomarmos boas decisões e sermos exatos. Porém toda a tecnologia, por mais que já totalmente desenvolvida e em níveis impressionantes de proximidade com decisões humanas, ainda é de robôs, e eles tratarão decisões como dados e não vidas. Esse é o desafio e o que ainda nos separa (seres-humanos com alma e individualidade) deles.

Fiquem todos bem e em casa.

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